La Question Humaine

“O divã do gestor!”

O título é uma referência ao filme de mesmo nome – A Questão Humana -, do diretor Nicolas Klotz, o qual eu pude ter contato em uma mostra de cinema do SESC aqui em Ribeirão Preto, antes mesmo de ter começado a cursar psicologia. Agora com um pouco mais de repertório em relação ao tema abordado por Klotz, considero o filme essencial para qualquer pessoa que queira se inteirar de uma ocupação cada vez mais presente no universo dos psicólogos, e não somente, também de quem se interessa pelas relações humanas, de trabalho e de como essas questões podem influenciar o indivíduo.

Frente a essas questões, uma peculiaridade me incomoda um tanto: não quero aqui colocar em demérito tudo que já foi conquistado na área da Psicologia Organizacional em termos de ciência, entretanto, é extremamente perigoso a falta de mobilização política dos profissionais dessa área. Quando digo isso, não em relação a política que nos é costumeira, relacionada a sindicato, burocracias e outras “cracias”, mas ao que se vale em relação à busca dos interesses comuns da classe, que além do mais, acredito eu como futuro profissional psicólogo, se regem pela ética, que por natureza não é indiferente quanto às críticas e reflexões da sociedade. Enfim, o ponto onde quero chegar é a questão que me parece evidente para  grande parte dos estudiosos das relações humanas: de fato, a Psicologia Organizacional ou os famigerados RH’s estão realmente interessados nas relações humanas e no bem-estar do trabalhador ou simplesmente dispõem as ferramentas da ciência humana, sem escrúpulos, ao interesse mercadológico das grandes empresas?

Ao que atentou Foucault, as relações de poder que foram construídas no século XX são “relações  de força”, difíceis de se localizar e combater, que perpassam todo corpo/cotidiano social. O comodismo, ou ainda a alienação social, fragilizam o indivíduo e intensificam esse processo, tornando muito mais fáceis de se aplicar as “mordaças” do controle social e inócuos os donos do poder. Compondo esse cenário, encontram-se lá os diversos manuais de como gerenciar e motivar sua equipe de negócios, como extrapolar os lucros e minimizar os conflitos, como ser um líder de sucesso, “Quem Roubou Meu Queijo?”, “O Monge e o Executivo”, e tantas outras “inteligências emocionais” que entopem as prateleiras das livrarias e das bibliotecas de nossos “managers” psicólogos. Então entra a indagação do diretor da empresa, no filme que citei, quando questiona o psicólogo responsável pelas seleções e recrutamentos e pelo processo de “corte” que a empresa vem sofrendo:

O imperdoável mundo empresarial… Como você concilia o fator humano com a necessidade da empresa ganhar dinheiro?

Assim, acabam-se as frustrações de muitos psicólogos em encontrar um resquício de participação na sociedade. Afinal de contas – não tenho os dados brutos, apenas uma vaga lembrança – é na área organizacional que se vão quase 30% da mão-de-obra da psicologia. E indubitavelmente, o efeito na sociedade, pelo menos para quem é realista e ainda vive em uma sociedade econômica, é de grande influência. Somos responsáveis por grande parte dos recrutamentos e seleções nos maiores conglomerados econômicos. Somos responsáveis por grande parte do tempo da jornada de trabalho de oito horas de um trabalhador comum da CLT: afinal de contas, comprovadamente é insalubre sentar por oito horas em uma cadeira de escritório, então, por isso, o brilhante psicólogo teve a ideia de intercalar o exercício laboral com exercícios de ioga! Eu não quero ser prepotente demais, mas duvido que algum dos colegas que leem esse post não conheçam algumas dessas práticas nas grandes empresas – e também de que elas atendem aos interesses dos empresários em melhorar os rendimentos do negócio. Um trabalhador psicossomaticamente saudável produz mais, e produz melhor, embora passe menos tempo em casa. Nós, psicólogos, somos um dos fatores responsáveis pela divisão social do trabalho que atualmente vigora.

Enfim, colegas, sintam-se honrados pois a valorização da psicologia que tanto se almeja há muito se deu – nós que ainda não havíamos percebido. Desde o tempo da gerência científica que a gestão de pessoas toma emprestado as ferramentas desenvolvidas para se conhecer melhor o fator humano. Porém, onde é que foi parar o fator humano? Está lá com a gestão de pessoas, ou está intrínseca à consciência de quem dela se vale? Não sei se vem ao caso nos mobilizarmos e trazê-lo de volta das mãos das mãos da gestão para o disponibilizarmos para a sociedade. Aos meus olhos, assim como a saúde já foi institucionalizada e criou suas relações de poder, assim anda o fator humano…

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